Carlos Estevão, a Gruta do Padre e os Pankararu de Itaparica, PE

por Renato Athias

Muito me alegra que a Biblioteca Digital Curt Nimuendaju, muito bem organizada e cuidada por Eduardo Rivail Ribeiro juntamente com seus colegas, venha nos proporcionar hoje a inclusão digital de um dos mais importantes trabalhos (e, eu diria ainda, um dos mais procurados escritos) do advogado, poeta e naturalista Carlos Estevão de Oliveira: “O ossuário da “Gruta do Padre”, em Itaparica e algumas notícias sobre remanescentes indígenas do Nordeste”. O texto é resultado de uma palestra realizada no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, no dia 10 de julho de 1937 e publicado inicialmente nos volumes XIV a XVII do Boletim do Museu Nacional, referentes aos anos de 1938 a 1941, e impresso pela Imprensa Nacional em 1942.

Carlos Estevão de Oliveira iniciou sua carreira como funcionário público em Alenquer, no estado do Pará, e exerceu o cargo de diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) entre os anos de 1930 a 1945; esta última função é certamente a mais importante de sua carreira pública no Pará. Após quase quinze anos à frente do MPEG, Carlos Estevão solicitou o seu afastamento temporário da diretoria por motivo de saúde. Pretendia vir a Pernambuco tratar de sua saúde e rever os familiares. Em dezembro de 1945, seu estado de saúde piorou durante a viagem, que estava sendo realizada de navio. Carlos Estevão, a esposa Maria Izabel e a filha Lygia desembarcaram em Fortaleza, Ceará, e hospedaram-se na casa de Antonio Carlos, filho mais velho de Carlos Estevão, médico e chefe do Serviço de Piscicultura do Nordeste. Carlos Estevão tinha problemas cardíacos e, percebendo o agravamento da doença, interrompeu a viagem a Recife, vindo a falecer em Fortaleza, no dia 5 de junho de 1946.

Em fevereiro de 1935, Carlos Estevão faz sua primeira visita aos Pankararu do Brejo dos Padres. No ano seguinte, ele solicita uma “licença prêmio” para poder ficar mais tempo na área e iniciar seus trabalhos nas terras do povo Pankararu. No dia 24 de fevereiro de 1936, antes mesmo de entrar no Brejo dos Padres, Carlos Estevão sai em visita ao canteiro de obras da Companhia Industrial e Agrícola do Baixo São Francisco, situada em Itaparica. Nessa visita, Carlos Estevão descobre em “um Serrote que fica perto da aludida cachoeira um ossuário indígena de real valor científico”. E ali próximo, ele encontra o velho Anselmo, um Pankararu com quem visita a gruta, e que lhe conta as primeiras narrativas sobre a “Gruta do Padre”. Durante os anos seguintes Carlos Estevão vai trabalhar com esses achados da Gruta do Padre e com os Pankararu. Essa publicação contém um relato dessas viagens, e será muito importante para os índios desta região. Torna-se uma peça importante no reconhecimento formal dos índios Pankararu pelo Estado brasileiro.


"Essa publicação […] torna-se uma peça importante no reconhecimento formal dos índios Pankararu pelo Estado brasileiro."


A partir desse trabalho que se tornou público através do Boletim do Museu Nacional, iniciou-se o interesse de muitos outros pesquisadores. Vale mencionar como exemplo Mário de Andrade, que em 1938 visita a região, registrando em filme as músicas e os torés Pankararu. A organização da narrativa do “ossuário de Gruta do Padre” é muito bonita, pois Carlos Estevão coloca muitos detalhes, e cita os nomes de todos aqueles com que manteve contato durante esse período em que se encontrava de “licença prêmio”. Ele também faz um relato muito simples e extremamente detalhado das visitas que fez entre os índios de Colégio, os Xukuru Kariri, e entre os Fulni-ô de Águas Belas. Ele conclui o seu texto fazendo um apelo em nome dos Pankararu, que na ocasião sofriam com a invasão de gado de fazendeiros em suas terras. Os animais atrapalhavam a atividade agrícola dos Pankararu, pois destruíam as lavouras.

No anexo ao texto, Carlos Estevão publicou um conjunto de fotografias que registram pessoas e momentos importantes dos Xukuru-Kariri, Fulni-ô e Pankararu. Essas fotografias, certamente feitas pela sua “Rolleiflex”, foram muito bem selecionadas, e são utilizadas muito bem pelos índios atualmente. Por exemplo, a fotografia que ele fez sobre os búzios do Toré Pankararu foi recuperada por um grupo de jovens Pankararu, e, através dela, esse grupo de jovens revitalizou a confecção dos búzios (flautas longas) e as músicas produzidas por essas flautas. Todas essas fotografias encontram-se online através do Museu Virtual da Coleção Carlos Estevão de Oliveira, do Museu do Estado de Pernambuco, que teve o apoio da Fundação de Amparo a Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE). Para ver os objetos e fotografias da coleção visite o site: http://www.ufpe.br/carlosestevao


Publicado originalmente no blog da Biblioteca Digital Curt Nimuendajú (27/nov/2011)

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