Max Schmidt: Die Aruaken — um clássico da etnologia sul-americanista

por Peter Schröder*

Die Aruaken, livro raro que apenas pode ser encontrado em poucos sebos, é uma síntese dos conhecimentos sobre os povos indígenas falantes de línguas aruaque, ou Aruak/ Arawak, no período antes da Primeira Guerra Mundial. É um estudo clássico de suma importância para os estudos comparativos dos povos aruaques, como pode ser observado pela leitura de diversos artigos na coletânea organizada por Jonathan Hill e Fernando Santos-Granero (Comparative Arawakan Histories: Rethinking Language Family and Culture Area in Amazonia. Urbana, Chicago: University of Illinois Press, 2002). A única tradução para o português, de autoria desconhecida, encontra-se depositada na biblioteca do PPGAS do Museu Nacional/UFRJ e até pode ser consultada online, porém não tem o mapa anexado do original. Por isso, é muito proveitoso que a Biblioteca Digital Curt Nimuendajú tenha disponibilizado a versão original digitalizada aos interessados.

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Trata-se da segunda tese de doutorado de Max Schmidt (1874-1950), que já era doutor em Direito pela Friedrich-Alexander-Universität Erlangen desde 1899 e tinha realizado três expedições científicas na América do Sul (1900-01, 1910 e 1914). Depois de voltar da primeira expedição, em 1901, ele obteve emprego, como assistente da diretoria, no Museu Etnológico de Berlim, naquela época o centro dos estudos etnológicos americanistas na Alemanha. Em 1916, Schmidt defendeu sua segunda tese na Faculdade de Filosofia da Universidade de Leipzig. A publicação, tradicionalmente obrigatória para receber definitivamente o título de doutor (Dr. phil., neste caso) no sistema universitário alemão, seguiu um ano depois.

Durante suas expedições Schmidt já tinha observado a influência cultural dos povos aruaques sobre grupos linguística e culturalmente diferenciados, o que estimulou o interesse de tentar achar uma explicação para a enorme expansão geográfica dos aruaques nas terras baixas da América do Sul. Como ele explicita na p. 12, o problema central do estudo não seria descobrir a origem geográfica dos aruaques, mas explicar sua dinâmica cultural. Na realidade, ele dedica-se às duas questões, porém dá preferência à segunda. E a forma como ele aborda esta questão de fato indica caminhos para rumos futuros da etnologia, enquanto a primeira é um resquício do século XIX. Apenas no cap. 5, Schmidt aventa uma hipótese sobre uma possível origem geográfica dos aruaques no sudoeste da Amazônia, operando com especulações sobre contatos com as culturas do altiplano andino, como Tiwanaku.


Schmidt analisa as formas de organização social dos aruaques com relação às atividades econômicas e às diferenciações sociais internas. A expansão dos aruaques seria menos populacional, no sentido de grupos inteiros se deslocarem a novos territórios, mas, sobretudo, caracterizada por dominação social e cultural. […] a incorporação de membros de outras sociedades se daria tanto por subjugação militar quanto, majoritariamente, por influências culturais exercidas de forma lenta e sutil […].


Chama a atenção que o autor problematiza diferenças entre classificações linguísticas e características culturais e opera com distinções claras entre fenômenos como língua e cultura e conceitos como aculturação, difusão e mudança cultural em termos gerais. Seu argumento epistemológico principal é que outros autores anteriores a ele não teriam levantado as questões certas sobre a expansão dos aruaques e, por isso, não teriam chegado a respostas satisfatórias. E a teoria de Schmidt de fato é diferente daquelas dos antecessores, mostrando grande originalidade para a época.

Nos comentários iniciais que precedem o texto principal (Methodologische Vorbemerkungen), o autor explica seu posicionamento teórico e metodológico: defende a interdisciplinaridade e chama a abordagem própria de sociológica. Inicialmente, a posição com relação à Doutrina dos Círculos Culturais (Kulturkreislehre) de Graebner e do Padre Wilhelm Schmidt ainda pode ser descrita como reservada e cautelosa, porém ela se transforma em rejeição contundente no final do trabalho. Do ponto de vista metodológico, Max Schmidt, com sua defesa de comparações interculturais sistemáticas e empiricamente fundamentadas, se posiciona mais próximo dos ensinamentos de Boas do que das teorias difusionistas austro-alemãs da época, refletindo as influências de Adolf Bastian e Karl von den Steinen.

A estrutura do trabalho é muito clara: depois dos comentários metodológicos e de um resumo sobre os estudos etnológicos realizados sobre os povos aruaques até então, Schmidt escreve sobre os motivos (cap. 2), os meios (cap. 3) e o caráter (cap. 4) da expansão das culturas aruaques. O cap. 5, o mais especulativo de todos, trata da posição das culturas aruaques com relação a outras culturas (indígenas e não-indígenas) nas Américas, enquanto no cap. 6 o autor examina a influência da expansão das culturas aruaques sobre as transformações de várias manifestações culturais. No final, os resultados do estudo são apresentados de forma concisa.

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O caráter do estudo é etnológico, no sentido de uma comparação sistemática de informações etnográficas. Para as análises bibliográficas Schmidt lançou mão, além dos próprios trabalhos sobre os “Paressí-Kabiší” (Paresí-Kabizi), principalmente dos estudos de autores como Paul Ehrenreich, Theodor Koch-Grünberg, Erland Nordenskiöld, Karl von den Steinen e Everhard im Thurn, este com relação às Guianas. Em geral, as explicações e digressões etnográficas não são exaustivas, mas têm a finalidade de dar sustento à teoria explicativa do autor sobre a expansão social e cultural dos aruaques. A função delas é basicamente ilustrativa.

O ponto de partida da análise de Schmidt é a identificação da agricultura, combinada com uma maior complexidade social, como denominador comum de todas as culturas aruaque, apesar de sua grande diversidade em termos gerais. O autor destaca as culturas de mandioca e milho como economicamente dominantes. Chama a atenção que as numerosas variedades destas culturas agrícolas ainda não foram levadas em consideração, mesmo sendo de suma relevância para os estudos das economias indígenas, com base nos conhecimentos atuais.

Desse modo, a abordagem “sociológica” de Schmidt também podia ser rotulada “socioeconômica”, embora ela não tenha nada a ver com determinismo materialista, porém é muito diferente das teorias mainstream na Alemanha da época. Schmidt apresenta uma cadeia de consequências: [características do meio ambiente + agricultura] > sociedades sedentárias > necessidades crescentes por várias matérias-primas > esgotamento de recursos naturais > aumento do trabalho a ser investido > [maior demanda por força de trabalho + redes mais amplas de troca e comércio]. Neste sentido, ele parece antecipar em parte a ecologia cultural de Julian Steward.

Schmidt analisa as formas de organização social dos aruaques com relação às atividades econômicas e às diferenciações sociais internas. A expansão dos aruaques seria menos populacional, no sentido de grupos inteiros se deslocarem a novos territórios, mas, sobretudo, caracterizada por dominação social e cultural. A necessidade de manter suas comunidades sedentárias desencadearia processos de procura por ampliar a força de trabalho não mais encontrada na própria sociedade, porém a incorporação de membros de outras sociedades se daria tanto por subjugação militar quanto, majoritariamente, por influências culturais exercidas de forma lenta e sutil, de modo que a expansão dos aruaques possa ser chamada ‘sociocultural’. Schmidt analisa as mais diversas formas, relatadas nas etnografias consultadas, de relações entre aruaques e não-aruaques: conflitos interétnicos com o objetivo de roubar ou escravizar mulheres e crianças, casamentos por rapto (“Raubehe”), dominação militar, alianças políticas, casamentos interétnicos pacificamente regularizados, adoções, visitas, festas, rituais, trocas de objetos, etc. Até o ritual da couvade é interpretado neste sentido: no caso de residência pós-nupcial uxorilocal, sua função seria socialmente agregativa por conseguir vincular genros à unidade doméstica do sogro (aruaque).


Die Aruaken é um clássico da etnologia sul-americanista que ainda vale a pena ler. Escrito num dos períodos mais terríveis da história humana, é interessante ver que o livro termina com um apelo ao leitor para que veja que muitas mudanças culturais podem ser alcançadas sem imposições violentas. Será que foi uma lembrança tímida de um humanista dos objetivos desastrosos do Império que levariam o país à derrota militar e ao colapso econômico um ano depois?


Além desses mecanismos de dominação, Schmidt apresenta uma série de outros que podiam ser rotulados de ‘ideológicos’ num sentido quase marxista: mitos, determinados rituais e magias. Até as artes plásticas são interpretadas como tendo essa função social.

A teoria de Schmidt sobre caráter e causas da expansão aruaque nas terras baixas da América do Sul tem pouco a ver com as teorias migratórias da época por identificar e explicitar diversos fatores sociais e econômicos. Desse modo, ele conseguiu apresentar uma teoria própria de mudança cultural, ao mesmo tempo funcionalista e dinâmica. Ela pode ser mais bem caracterizada como uma teoria de sobreposição social e cultural engatada com algum tipo de teoria de dependência avant le nom: os aruaques transformam em dependentes outros grupos ou povos antes independentes por contribuir à satisfação das necessidades econômicas destes e, ao mesmo tempo, de si mesmos. Ou com as palavras do autor: “Correspondem então, por um lado, o instinto de ganho e, por outro lado, o instinto de subjugação” (“Es entsprechen sich also der Erwerbstrieb auf der einen Seite und der Unterwerfungstrieb auf der anderen Seite”; p. 49). Um vocabulário superado, sim, mas indicador de uma teoria original.

No cap. 6, Schmidt lança uma crítica contundente contra Padre Wilhelm Schmidt e a Doutrina dos Círculos Culturais, em particular contra a aplicação dessa teoria para explicar a diversidade das culturas indígenas sul-americanas (SCHMIDT, Wilhelm, S.V.D. 1913. Kulturkreise und Kulturschichten in Südamerika. Zeitschrift für Ethnologie, 45: 1014-30). Tanto os círculos culturais (Kulturkreise) quanto as camadas culturais (Kulturschichten) não possuiriam nenhuma base empírica. O caráter especulativo do difusionismo austro-alemão é confrontado com a própria teoria de mudanças culturais, inspirada, por sua vez, na teoria de mudança cultural do sociólogo Alfred Vierkandt (1867-1953) (Die Stetigkeit im Kulturwandel: Eine soziologische Studie. Leipzig: Duncker & Humblot, 1908). Vierkandt distinguiu entre “bens culturais” (Kulturgüter) “essenciais” e “não essenciais”, o que explica sua utilidade para o modelo de mudança cultural esboçado por Schmidt para os processos de “aruaquisação” (“Aruakisierung”).

Die Aruaken é um clássico da etnologia sul-americanista que ainda vale a pena ler. Escrito num dos períodos mais terríveis da história humana, é interessante ver que o livro termina com um apelo ao leitor para que veja que muitas mudanças culturais podem ser alcançadas sem imposições violentas. Será que foi uma lembrança tímida de um humanista dos objetivos desastrosos do Império que levariam o país à derrota militar e ao colapso econômico um ano depois?


  • Peter Schröder [perfil] é professor do Departamento de Antropologia e Museologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco.
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